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A
educação como um processo, desde a mais tenra idade. Esse é o principal
debate em torno da contemporaneidade da educação montessoriana - um
sistema que tem como base a formação do indivíduo a partir de trabalhos
especificamente voltados para cada fase da vida e personalidade, porém com
objetivos complementares e interligados.
Presente nos Estados Unidos, México, Canadá e em várias nações européias e
sul-americanas, inclusive no Brasil, a educação montessoriana tem como um
de seus focos a importância da Educação Infantil, como destaca a Relações
Internacionais da Organização Montessori do Brasil, Sonia Maria Alvarenga.
Nesta entrevista, ela antecipa questões que estarão em debate na IV
Conferência Latino-Americana da Organização Montessori do Brasil, que terá
início no dia 3 de julho, em Salvador (BA).
"Na
Educação Infantil, tem-se toda uma preocupação de perceber as
características da criança e ajudá-la a melhorar algumas condições que não
estejam boas ou a enriquecer o potencial que ela traz", destacou ela.
Professora, pedagoga e psicopedagoga, Sonia Maria Alvarenga é uma das
poucas pessoas no mundo autorizadas pela Associação Montessori
Internacional a traduzir e publicar obras oficiais sobre o método
montessoriano.
"E este é um aspecto importante pois, para se estudar um sistema
educacional, é preciso que se estude nas obras oficiais e não em idéias
que formaram sobre o sistema, que, às vezes, podem estar truncadas. Então,
para que ele seja entendido com mais profundidade, os livros estão
chegando ao Brasil", disse Sonia Maria, lembrando que uma nova tradução
dos ideais de Maria Montessori, desta vez a respeito da fase que vai dos
12 aos 18 anos, será lançada ainda este ano.
FOLHA
DIRIGIDA — Quais as principais diretrizes da educação Montessoriana?
Sonia Maria Alvarenga —
O Sistema Montessori de Ensino tem uma grande marca que é a preocupação
com a preparação para a cidadania. Maria Montessori sempre teve como base
de seu sistema que o investimento na criança e no jovem deveria ser feito
de uma forma bastante profunda, com uma visão científica para que fosse
possível contribuir com o desenvolvimento de homens integrais, isto é, com
bagagem intelectual e, além disso, o esteio dos valores morais. A
diferença é a forma como encaramos o indivíduo. Não apenas com uma
perspectiva intelectual mas como um homem que precisa ser visto na sua
parte física, psíquica, e de desenvolvimento de valores.
FOLHA
DIRIGIDA — Estes objetivos que a senhora apresentou, naturalmente,
referem-se à maioria dos sistemas educacionais. Porém, qual a proposta
para se atingir estes objetivos?
Sonia Alvarenga —
É fundamental a formação dos profissionais que vão trabalhar com estas
crianças e jovens. É uma formação mais complexa. Não basta ter um curso de
formação no Magistério ou um de Pedagogia. É preciso que ele tenha
informações das etapas do desenvolvimento e as necessidades de cada uma
delas. Trata-se de um conhecimento científico do indivíduo. Paralelamente
a isto, é preciso ter um ambiente bem estruturado, com recursos que possam
facilitar as diferenças individuais do desenvolvimento. Não podemos
encarar todos da mesma maneira. Não podemos esperar que todos atinjam os
mesmos objetivos no mesmo tempo. Temos de levar em conta a
individualidade, o tempo de cada um, as diferenças que existem. E isto é
um dos aspectos na dinâmica de uma escola montessoriana.
FOLHA
DIRIGIDA — Esta diretriz de levar em conta as diferenças está presente na
educação brasileira, de forma geral?
Sonia Alvarenga —
Na área de legislação, há uma preocupação com isto. Mas não assistimos a
isto na prática. Ainda não houve, por parte das instituições formadoras
dos educadores, a reformulação necessária para que isto acontecesse. Os
educadores não saem com bagagem de conhecimentos e com subsídios
necessários para este atendimento. É a maior dificuldade deles e isto
percebemos quando promovemos encontros com especialistas em que discutimos
problemas como dislexia, distúrbio de comportamento, entre outros
assuntos. Nestes eventos, é clara a ânsia de aprender como lidar com as
diferenças, pois o profissional não traz esta bagagem. Então, esta é a
maior dificuldade no momento: propõe-se uma educação diferenciada só que a
formação dos profissionais ainda não atende a esta característica.
FOLHA
DIRIGIDA — E como preencher esta lacuna?
Sonia Alvarenga —
Em primeiro lugar, como Montessori diz, precisamos abordar o papel da
universidade. E a universidade, que é a ponta final da formação do
indivíduo, não está ainda preparada para uma nova visão educacional. A
universidade, como muitas instituições escolares, estão trabalhando como
há 50 anos. E isto em pleno século XXI, onde os objetivos são plenamente
divulgados pela Unesco de uma Educação com valores e objetivos diferentes.
Enquanto não houver uma reformulação nos cursos de formação e em suas
estruturas, não vamos atingir estes objetivos. Para formar pessoas
diferentes, que pensem e atuem de formas diferentes, é preciso que os
educadores tenham também uma formação que se adeqüe a estas novas
demandas.
FOLHA
DIRIGIDA — O Sistema Montessori identifica quatro períodos essenciais de
desenvolvimento e na formação do indivíduo: de 0 a 6
anos, de 6 a
12 anos, dos 12 aos 18 anos e 18 em diante. Qual a estratégia educacional
mais interessante a ser adotada em cada uma destas fases?
Sonia Alvarenga —
O
trabalho de Montessori tem planos de desenvolvimento. A primeira fase, de
0 a
6 anos, é a mais importante para se trabalhar, pois é onde são lançados os
alicerces do indivíduo. Não se pode perder as oportunidades deste
trabalho. Por isso, é fundamental uma preocupação com esta primeira fase
da vida, com um ambiente bem estruturado do ponto de vista físico, com os
recursos necessários, e do ponto de vista psíquico, com profissionais
muito atentos e atenciosos. Atento no sentido de diagnosticar o momento
certo de entrar com uma informação, com senso de observação muito apurado
para perceber o momento da criança, o que ela sinaliza. E atencioso no
sentido do carinho e do respeito com a criança. É indispensável que se
faça um trabalho com muita profundidade nesta etapa.
FOLHA
DIRIGIDA — E na segunda fase, a partir dos seis anos?
Sonia Alvarenga —
Montessori faz uma referência muito importante a partir dos seis anos, que
chama de educação cósmica. Se observarmos, é a contemporaneidade de suas
idéias. A educação cósmica é o momento em que a criança abre o olhar para
o mundo. Ela sai de si mesma, derrubando um pouco das barreiras que
existem, até na própria escola. Tem de existir maior amplitude da ação
desta criança. Se antes estava em um ambiente mais restrito, a partir
deste momento precisa de um espaço em que tenha maior contato com o mundo.
O que é a visão cósmica? É a de uma formação de consciência, que começa
aos seis anos e se estende dali em
diante. A
partir daí, vem a criação da responsabilidade social. É o que se coloca,
hoje, como desenvolvimento sustentável, ou seja, uma preocupação com o
ambiente como um todo e lembrando que o ser humano faz parte deste todo e,
por isso, tem de ter valores, princípios, para criar condições de
sustentabilidade. Isso Montessori já dizia quando falava de educação
cósmica. A partir dos seis anos, a preocupação é dar à criança um
conhecimento de universo, da harmonia do universo e mostrar a ela que é
co-responsável pela manutenção desta harmonia. Isto faz com que as
matérias não fiquem restritas àqueles conceitos tão primários que os
livros didáticos nos trazem. Trata-se de estimular a curiosidade, a
criatividade, a imaginação da criança para ela ir além, para buscar e
saber cada vez mais e se tornar mais consciente.
FOLHA
DIRIGIDA — E como este processo é concluído na 3ª e na 4ª fases?
Sonia Alvarenga —
A partir dos 12 anos, é importante que a formação dê ênfase ao
empreendedorismo. A Montessori já fala neste aspecto quando aborda uma
escola em que os alunos teriam um trabalho paralelo ao de sala de aula,
como o de uma hotelaria ou outro tipo de serviço, onde torna-se necessário
conduzir este processo empresarialmente. Uma outra forma de se atingir
este objetivo é proporcionar aos alunos a contextualização através de
aulas de campo, onde possam sair, experimentar, vivenciar, observar,
porque este é o melhor aprendizado. A participação efetiva é fundamental.
À teoria, o aluno tem acesso muito facilmente. Mas é a vivência que vai
dar a ele a real conquista do conhecimento. E todas as etapas já
mencionadas estruturam condições para que o indivíduo se lance no mercado
de trabalho ou na vida acadêmica e leve uma bagagem que faça com que ele
se articule melhor onde esteja. A preocupação é sempre torná-lo autônomo
para que aprenda a resolver seus próprios problemas de acordo com a
situação proposta. Que seja capaz de assumir responsabilidades. Com isto,
ele é criativo, flexível, consciente do papel que deve fazer para
cooperar, ou seja, alguém pronto para os desafios da vida.
FOLHA
DIRIGIDA — Há muita desinformação a respeito da importância da Educação
Infantil para o aprendizado? Ainda é comum a idéia de que a educação
infantil requer menos preparo do professor?
Sonia Alvarenga —
Felizmente, de maneira geral, há muitos profissionais de educação com
plena consciência da importância desta fase. Mas, não só uma parcela dos
profissionais, como também das famílias, ainda vêem na Educação Infantil
uma hora de brincar sem objetivos. É brincar pelo brincar. Quando sabemos
que, na Educação Infantil, o brincar, o jogo, as atividades todas têm
objetivos muito maiores. Neste caso, se desenvolve as potencialidades da
criança para que possa, depois, desabrochar na área cognitiva.
FOLHA
DIRIGIDA — Que contribuição traz o acesso à educação infantil para o
desenvolvimento intelectual do indivíduo? É comum jovens que tiveram
acesso à educação infantil apresentarem rendimento melhor na vida escolar?
Sonia Alvarenga —
Com certeza. Na Educação Infantil, tem-se toda uma preocupação de perceber
as características da criança e ajudá-la a melhorar algumas condições que
não estejam boas ou a enriquecer o potencial que ela traz. Então, no nível
das percepções, do vocabulário, deste primeiro aprendizado de
responsabilidade com ela mesma, seu ambiente e o outro, esta é uma fase
essencial. Além disso, há o desenvolvimento da parte motora da criança,
com a psicomotricidade, que é o que Montessori chamava de Educação dos
Movimentos. Então, este trabalho é hoje a base ideal para que um aluno
possa ter mais facilidade para se desenvolver. Se a criatividade for
bastante estimulada nos primeiros anos, vai ser um melhor escritor,
observador e isto é importante para que esteja observando o que aprende,
tire conclusões e elabore suas opiniões. Este trabalho de 0 a 6 anos é de
profunda importância, pois vai atender o desenvolvimento motor,
lingüístico, do raciocínio lógico e vai dar suporte ao desenvolvimento
emocional, ou seja, transformar o que a criança traz com ela em grandes
potencialidades.
FOLHA
DIRIGIDA — Uma das características do Método Montessori é a pedagogia
científica. Qual o perfil desta pedagogia?
Sonia Alvarenga —
A própria formação da doutora Montessori foi bastante eclética. Como
médica e psiquiatra, ela conhecia toda a questão anatômica, fisiológica e
emocional das criaturas. E esta bagagem foi muito importante para as
primeiras observações dela. Foi a partir daí que ela começou a perceber a
necessidade de um ambiente com uma estrutura física adequada a cada fase
do desenvolvimento, para que a criança ou o jovem se sentisse confortável.
Depois, através de sua observação das crianças diante dos estímulos
oferecidos, que foi um trabalho de muitos anos, e a partir das idéias de
teóricos como Comenius (Iohannis Amos Comenius), João Pestalozzi, Itard
(Jean Marc Gaspard Itard) e outros tantos, ela estruturou recursos para
facilitar a aprendizagem. Daí surgem os materiais, que são facilitadores
desta aprendizagem, e a forma como as crianças deveriam ser atendidas em
cada fase de seu desenvolvimento. E, a partir desta pedagogia científica,
foram traçados planos de desenvolvimento para cada uma destas fases. Foi a
partir deste trabalho que Jean Piaget ampliou e aprofundou sua pesquisa de
desenvolvimento da linguagem.
FOLHA
DIRIGIDA — Como a senhora avalia o trabalho relacionado ao ensino das
ciências nas escolas brasileiras, especialmente no ensino fundamental?
Sonia Alvarenga —
As ciências como um todo não são ainda encaradas como algo dinâmico,
sempre em
desenvolvimento. Existem
críticas de educadores atuais, como Edgar Morin, que defende que a escola
tradicional ainda trata a ciência de uma maneira muito fria, não
despertando o gosto do estudante porque ele não consegue perceber os
vínculos que existem com o cotidiano. Afinal, está tudo interligado. E o
homem fragmentou este conhecimento. Já Montessori, com a visão da Educação
Cósmica, propõe que tudo esteja interligado. O professor pode apresentar o
universo ao aluno e, ao mesmo tempo, apresentar questões que tocam a
Química, a História, a Biologia, justamente para que o estudante possa
entender que está tudo interligado.
FOLHA
DIRIGIDA — Uma pedagogia mais adequada contribuiria para que os estudantes
tivessem um grau menor de dificuldades com matérias como Matemática,
Física ou Química?
Sonia Alvarenga —
A criança, na Educação Infantil, trabalha com recursos que têm, pois traz
de seus objetivos primeiros o desenvolvimento do pensamento matemático.
Então, a Matemática se torna gostosa, interessante. Quebra este estigma de
que Matemática é difícil, pois ela consegue perceber tudo. Uma criança de
4 anos pode trabalhar com o cubo de binômio. Em um primeiro momento, ela
não estará jamais preocupada com a fórmula. Mas aquele montar e desmontar
estimula o raciocínio lógico e matemático. Ela visualiza o que,
futuramente, será mostrado em uma fórmula. E, quando isto ocorrer, ela
associará à imagem que já tem e, a partir daí, torna-se muito mais fácil.
A criança precisa materializar, concretizar os conceitos primeiro. São
etapas evolutivas. A pessoa sai do concreto para o semi-abstrato para
chegar ao abstrato. E a Matemática, como é dada para a criança, já chega
na fase final, ou seja, na fase abstrata. Então, por isso, tantas
dificuldades na Matemática, na Química, na Física, são decorrentes desta
ausência de estruturação. Quando não se respeita as etapas da evolução do
pensamento, da condição de aprendizado da criança, isto gera dificuldades
no futuro. A cada etapa do desenvolvimento, se a criança tiver o recurso
material para entender, o processo torna-se muito mais fácil. Com isto, as
barreiras são eliminadas, eles passam a gostar de estudar e mantêm vivo
este desejo de querer saber, que é o que enriquece o ser humano. Tem de
ser uma aula, uma escola prazerosa, em que sintam que vão vivenciar e,
realmente, aprender. Assim, o aprendizado das ciências se torna mais
fácil.
FOLHA
DIRIGIDA — A partir do dia 3 de julho, ocorre a 4ª Conferência Latino
Americana da Organização Montessori do Brasil. Qual a sua expectativa
sobre o evento?
Sonia Alvarenga —
A temática geral do congresso é justamente a contemporaneidade do Sistema
Montessori. Por tratar-se de um sistema que teve início há 100 anos,
muitos acham que ele está ultrapassado. Quando, na verdade, é preciso que
possamos divulgar sua contemporaneidade, sua atualidade. Este é o cerne da
nossa conferência latino-americana que ocorrerá nos dias 3, 4 e 5 de
julho, em
Salvador. Teremos
a presença de expositores estrangeiros, ambientes de estudos para público
de 3 a
6 anos, de 6 a 12
anos, todos montados para que as pessoas possam observar esta dinâmica.
Será o momento para perceberem mais de perto e de forma mais concreta como
funciona o Sistema Montessori. E durante o congresso, paralelamente,
estaremos lançando a tradução "Da Infância à Adolescência", que sou
atualmente autorizada pela Associação Montessori Internacional a traduzir
e a publicar os livros que nunca foram publicados no Brasil. E este é um
aspecto importante pois, para se estudar um sistema educacional, é preciso
que se estude nas obras oficiais e não em idéias que formaram sobre o
sistema, que, às vezes, podem estar truncadas. Então, para que ele seja
entendido com mais profundidade, os livros estão chegando ao Brasil. E
este já é o terceiro livro que estamos lançando, que trata justamente
desta continuidade, que vai até a universidade. A Conferência
Latino-Americana será um momento especial e estamos com uma expectativa
muito positiva. Esperamos um grande público, não apenas de montessorianos,
mas também formado por aqueles que têm um olhar mais carinhoso para o
Sistema Montessori. |