Folha Dirigida

Montessori: na individualidade, a

construção do todo

Renato Deccache

22/06/2006

A educação como um processo, desde a mais tenra idade. Esse é o principal debate em torno da contemporaneidade da educação montessoriana - um sistema que tem como base a formação do indivíduo a partir de trabalhos especificamente voltados para cada fase da vida e personalidade, porém com objetivos complementares e interligados.

Presente nos Estados Unidos, México, Canadá e em várias nações européias e sul-americanas, inclusive no Brasil, a educação montessoriana tem como um de seus focos a importância da Educação Infantil, como destaca a Relações Internacionais da Organização Montessori do Brasil, Sonia Maria Alvarenga. Nesta entrevista, ela antecipa questões que estarão em debate na IV Conferência Latino-Americana da Organização Montessori do Brasil, que terá início no dia 3 de julho, em Salvador (BA).

"Na Educação Infantil, tem-se toda uma preocupação de perceber as características da criança e ajudá-la a melhorar algumas condições que não estejam boas ou a enriquecer o potencial que ela traz", destacou ela. Professora, pedagoga e psicopedagoga, Sonia Maria Alvarenga é uma das poucas pessoas no mundo autorizadas pela Associação Montessori Internacional a traduzir e publicar obras oficiais sobre o método montessoriano.

"E este é um aspecto importante pois, para se estudar um sistema educacional, é preciso que se estude nas obras oficiais e não em idéias que formaram sobre o sistema, que, às vezes, podem estar truncadas. Então, para que ele seja entendido com mais profundidade, os livros estão chegando ao Brasil", disse Sonia Maria, lembrando que uma nova tradução dos ideais de Maria Montessori, desta vez a respeito da fase que vai dos 12 aos 18 anos, será lançada ainda este ano.

FOLHA DIRIGIDA — Quais as principais diretrizes da educação  Montessoriana?
Sonia Maria Alvarenga —
O Sistema Montessori de Ensino tem uma grande marca que é a preocupação com a preparação para a cidadania. Maria Montessori sempre teve como base de seu sistema que o investimento na criança e no jovem deveria ser feito de uma forma bastante profunda, com uma visão científica para que fosse possível contribuir com o desenvolvimento de homens integrais, isto é, com bagagem intelectual e, além disso, o esteio dos valores morais. A diferença é a forma como encaramos o indivíduo. Não apenas com uma perspectiva intelectual mas como um homem que precisa ser visto na sua parte física, psíquica, e de desenvolvimento de valores.

FOLHA DIRIGIDA — Estes objetivos que a senhora apresentou, naturalmente, referem-se à maioria dos sistemas educacionais. Porém, qual a proposta para se atingir estes objetivos?
Sonia Alvarenga —
É fundamental a formação dos profissionais que vão trabalhar com estas crianças e jovens. É uma formação mais complexa. Não basta ter um curso de formação no Magistério ou um de Pedagogia. É preciso que ele tenha informações das etapas do desenvolvimento e as necessidades de cada uma delas. Trata-se de um conhecimento científico do indivíduo. Paralelamente a isto, é preciso ter um ambiente bem estruturado, com recursos que possam facilitar as diferenças individuais do desenvolvimento. Não podemos encarar todos da mesma maneira. Não podemos esperar que todos atinjam os mesmos objetivos no mesmo tempo. Temos de levar em conta a individualidade, o tempo de cada um, as diferenças que existem. E isto é um dos aspectos na dinâmica de uma escola montessoriana.

FOLHA DIRIGIDA — Esta diretriz de levar em conta as diferenças está presente na educação brasileira, de forma geral?
Sonia Alvarenga —
Na área de legislação, há uma preocupação com isto. Mas não assistimos a isto na prática. Ainda não houve, por parte das instituições formadoras dos educadores, a reformulação necessária para que isto acontecesse. Os educadores não saem com bagagem de conhecimentos e com subsídios necessários para este atendimento. É a maior dificuldade deles e isto percebemos quando promovemos encontros com especialistas em que discutimos problemas como dislexia, distúrbio de comportamento, entre outros assuntos. Nestes eventos, é clara a ânsia de aprender como lidar com as diferenças, pois o profissional não traz esta bagagem. Então, esta é a maior dificuldade no momento: propõe-se uma educação diferenciada só que a formação dos profissionais ainda não atende a esta característica.

FOLHA DIRIGIDA — E como preencher esta lacuna?
Sonia Alvarenga —
Em primeiro lugar, como Montessori diz, precisamos abordar o papel da universidade. E a universidade, que é a ponta final da formação do indivíduo, não está ainda preparada para uma nova visão educacional. A universidade, como muitas instituições escolares, estão trabalhando como há 50 anos. E isto em pleno século XXI, onde os objetivos são plenamente divulgados pela Unesco de uma Educação com valores e objetivos diferentes. Enquanto não houver uma reformulação nos cursos de formação e em suas estruturas, não vamos atingir estes objetivos. Para formar pessoas diferentes, que pensem e atuem de formas diferentes, é preciso que os educadores tenham também uma formação que se adeqüe a estas novas demandas.

FOLHA DIRIGIDA — O Sistema Montessori identifica quatro períodos essenciais de desenvolvimento e na formação do indivíduo: de 0 a 6 anos, de 6 a 12 anos, dos 12 aos 18 anos e 18 em diante. Qual a estratégia educacional mais interessante a ser adotada em cada uma destas fases?
Sonia Alvarenga —
O trabalho de Montessori tem planos de desenvolvimento. A primeira fase, de 0 a 6 anos, é a mais importante para se trabalhar, pois é onde são lançados os alicerces do indivíduo. Não se pode perder as oportunidades deste trabalho. Por isso, é fundamental uma preocupação com esta primeira fase da vida, com um ambiente bem estruturado do ponto de vista físico, com os recursos necessários, e do ponto de vista psíquico, com profissionais muito atentos e atenciosos. Atento no sentido de diagnosticar o momento certo de entrar com uma informação, com senso de observação muito apurado para perceber o momento da criança, o que ela sinaliza. E atencioso no sentido do carinho e do respeito com a criança. É indispensável que se faça um trabalho com muita profundidade nesta etapa.

FOLHA DIRIGIDA — E na segunda fase, a partir dos seis anos?
Sonia Alvarenga —
Montessori faz uma referência muito importante a partir dos seis anos, que chama de educação cósmica. Se observarmos, é a contemporaneidade de suas idéias. A educação cósmica é o momento em que a criança abre o olhar para o mundo. Ela sai de si mesma, derrubando um pouco das barreiras que existem, até na própria escola. Tem de existir maior amplitude da ação desta criança. Se antes estava em um ambiente mais restrito, a partir deste momento precisa de um espaço em que tenha maior contato com o mundo. O que é a visão cósmica? É a de uma formação de consciência, que começa aos seis anos e se estende dali em diante. A partir daí, vem a criação da responsabilidade social. É o que se coloca, hoje, como desenvolvimento sustentável, ou seja, uma preocupação com o ambiente como um todo e lembrando que o ser humano faz parte deste todo e, por isso, tem de ter valores, princípios, para criar condições de sustentabilidade. Isso Montessori já dizia quando falava de educação cósmica. A partir dos seis anos, a preocupação é dar à criança um conhecimento de universo, da harmonia do universo e mostrar a ela que é co-responsável pela manutenção desta harmonia. Isto faz com que as matérias não fiquem restritas àqueles conceitos tão primários que os livros didáticos nos trazem. Trata-se de estimular a curiosidade, a criatividade, a imaginação da criança para ela ir além, para buscar e saber cada vez mais e se tornar mais consciente.

FOLHA DIRIGIDA — E como este processo é concluído na 3ª e na 4ª fases?
Sonia Alvarenga —
A partir dos 12 anos, é importante que a formação dê ênfase ao empreendedorismo. A Montessori já fala neste aspecto quando aborda uma escola em que os alunos teriam um trabalho paralelo ao de sala de aula, como o de uma hotelaria ou outro tipo de serviço, onde torna-se necessário conduzir este processo empresarialmente. Uma outra forma de se atingir este objetivo é proporcionar aos alunos a contextualização através de aulas de campo, onde possam sair, experimentar, vivenciar, observar, porque este é o melhor aprendizado. A participação efetiva é fundamental. À teoria, o aluno tem acesso muito facilmente. Mas é a vivência que vai dar a ele a real conquista do conhecimento. E todas as etapas já mencionadas estruturam condições para que o indivíduo se lance no mercado de trabalho ou na vida acadêmica e leve uma bagagem que faça com que ele se articule melhor onde esteja. A preocupação é sempre torná-lo autônomo para que aprenda a resolver seus próprios problemas de acordo com a situação proposta. Que seja capaz de assumir responsabilidades. Com isto, ele é criativo, flexível, consciente do papel que deve fazer para cooperar, ou seja, alguém pronto para os desafios da vida.

FOLHA DIRIGIDA — Há muita desinformação a respeito da importância da Educação Infantil para o aprendizado? Ainda é comum a idéia de que a educação infantil requer menos preparo do professor?
Sonia Alvarenga —
Felizmente, de maneira geral, há muitos profissionais de educação com plena consciência da importância desta fase. Mas, não só uma parcela dos profissionais, como também das famílias, ainda vêem na Educação Infantil uma hora de brincar sem objetivos. É brincar pelo brincar. Quando sabemos que, na Educação Infantil, o brincar, o jogo, as atividades todas têm objetivos muito maiores. Neste caso, se desenvolve as potencialidades da criança para que possa, depois, desabrochar na área cognitiva.

FOLHA DIRIGIDA — Que contribuição traz o acesso à educação infantil para o desenvolvimento intelectual do indivíduo? É comum jovens que tiveram acesso à educação infantil apresentarem rendimento melhor na vida escolar?
Sonia Alvarenga —
Com certeza. Na Educação Infantil, tem-se toda uma preocupação de perceber as características da criança e ajudá-la a melhorar algumas condições que não estejam boas ou a enriquecer o potencial que ela traz. Então, no nível das percepções, do vocabulário, deste primeiro aprendizado de responsabilidade com ela mesma, seu ambiente e o outro, esta é uma fase essencial. Além disso, há o desenvolvimento da parte motora da criança, com a psicomotricidade, que é o que Montessori chamava de Educação dos Movimentos. Então, este trabalho é hoje a base ideal para que um aluno possa ter mais facilidade para se desenvolver. Se a criatividade for bastante estimulada nos primeiros anos, vai ser um melhor escritor, observador e isto é importante para que esteja observando o que aprende, tire conclusões e elabore suas opiniões. Este trabalho de 0 a 6 anos é de profunda importância, pois vai atender o desenvolvimento motor, lingüístico, do raciocínio lógico e vai dar suporte ao desenvolvimento emocional, ou seja, transformar o que a criança traz com ela em grandes potencialidades.

FOLHA DIRIGIDA — Uma das características do Método Montessori é a pedagogia científica. Qual o perfil desta pedagogia?
Sonia Alvarenga —
A própria formação da doutora Montessori foi bastante eclética. Como médica e psiquiatra, ela conhecia toda a questão anatômica, fisiológica e emocional das criaturas. E esta bagagem foi muito importante para as primeiras observações dela. Foi a partir daí que ela começou a perceber a necessidade de um ambiente com uma estrutura física adequada a cada fase do desenvolvimento, para que a criança ou o jovem se sentisse confortável. Depois, através de sua observação das crianças diante dos estímulos oferecidos, que foi um trabalho de muitos anos, e a partir das idéias de teóricos como Comenius (Iohannis Amos Comenius), João Pestalozzi, Itard (Jean Marc Gaspard Itard) e outros tantos, ela estruturou recursos para facilitar a aprendizagem. Daí surgem os materiais, que são facilitadores desta aprendizagem, e a forma como as crianças deveriam ser atendidas em cada fase de seu desenvolvimento. E, a partir desta pedagogia científica, foram traçados planos de desenvolvimento para cada uma destas fases. Foi a partir deste trabalho que Jean Piaget ampliou e aprofundou sua pesquisa de desenvolvimento da linguagem.

FOLHA DIRIGIDA — Como a senhora avalia o trabalho relacionado ao ensino das ciências nas escolas brasileiras, especialmente no ensino fundamental?
Sonia Alvarenga —
As ciências como um todo não são ainda encaradas como algo dinâmico, sempre em desenvolvimento. Existem críticas de educadores atuais, como Edgar Morin, que defende que a escola tradicional ainda trata a ciência de uma maneira muito fria, não despertando o gosto do estudante porque ele não consegue perceber os vínculos que existem com o cotidiano. Afinal, está tudo interligado. E o homem fragmentou este conhecimento. Já Montessori, com a visão da Educação Cósmica, propõe que tudo esteja interligado. O professor pode apresentar o universo ao aluno e, ao mesmo tempo, apresentar questões que tocam a Química, a História, a Biologia, justamente para que o estudante possa entender que está tudo interligado.

FOLHA DIRIGIDA — Uma pedagogia mais adequada contribuiria para que os estudantes tivessem um grau menor de dificuldades com matérias como Matemática, Física ou Química?
Sonia Alvarenga —
A criança, na Educação Infantil, trabalha com recursos que têm, pois traz de seus objetivos primeiros o desenvolvimento do pensamento matemático. Então, a Matemática se torna gostosa, interessante. Quebra este estigma de que Matemática é difícil, pois ela consegue perceber tudo. Uma criança de 4 anos pode trabalhar com o cubo de binômio. Em um primeiro momento, ela não estará jamais preocupada com a fórmula. Mas aquele montar e desmontar estimula o raciocínio lógico e matemático. Ela visualiza o que, futuramente, será mostrado em uma fórmula. E, quando isto ocorrer, ela associará à imagem que já tem e, a partir daí, torna-se muito mais fácil. A criança precisa materializar, concretizar os conceitos primeiro. São etapas evolutivas. A pessoa sai do concreto para o semi-abstrato para chegar ao abstrato. E a Matemática, como é dada para a criança, já chega na fase final, ou seja, na fase abstrata. Então, por isso, tantas dificuldades na Matemática, na Química, na Física, são decorrentes desta ausência de estruturação. Quando não se respeita as etapas da evolução do pensamento, da condição de aprendizado da criança, isto gera dificuldades no futuro. A cada etapa do desenvolvimento, se a criança tiver o recurso material para entender, o processo torna-se muito mais fácil. Com isto, as barreiras são eliminadas, eles passam a gostar de estudar e mantêm vivo este desejo de querer saber, que é o que enriquece o ser humano. Tem de ser uma aula, uma escola prazerosa, em que sintam que vão vivenciar e, realmente, aprender. Assim, o aprendizado das ciências se torna mais fácil.

FOLHA DIRIGIDA — A partir do dia 3 de julho, ocorre a 4ª Conferência Latino Americana da Organização Montessori do Brasil. Qual a sua expectativa sobre o evento?
Sonia Alvarenga —
A temática geral do congresso é justamente a contemporaneidade do Sistema Montessori. Por tratar-se de um sistema que teve início há 100 anos, muitos acham que ele está ultrapassado. Quando, na verdade, é preciso que possamos divulgar sua contemporaneidade, sua atualidade. Este é o cerne da nossa conferência latino-americana que ocorrerá nos dias 3, 4 e 5 de julho, em Salvador. Teremos a presença de expositores estrangeiros, ambientes de estudos para público de 3 a 6 anos, de 6 a 12 anos, todos montados para que as pessoas possam observar esta dinâmica. Será o momento para perceberem mais de perto e de forma mais concreta como funciona o Sistema Montessori. E durante o congresso, paralelamente, estaremos lançando a tradução "Da Infância à Adolescência", que sou atualmente autorizada pela Associação Montessori Internacional a traduzir e a publicar os livros que nunca foram publicados no Brasil. E este é um aspecto importante pois, para se estudar um sistema educacional, é preciso que se estude nas obras oficiais e não em idéias que formaram sobre o sistema, que, às vezes, podem estar truncadas. Então, para que ele seja entendido com mais profundidade, os livros estão chegando ao Brasil. E este já é o terceiro livro que estamos lançando, que trata justamente desta continuidade, que vai até a universidade. A Conferência Latino-Americana será um momento especial e estamos com uma expectativa muito positiva. Esperamos um grande público, não apenas de montessorianos, mas também formado por aqueles que têm um olhar mais carinhoso para o Sistema Montessori.